domingo, 2 de janeiro de 2022

[0083] 4.º texto de Joaquim Saial no jornal cultural "As Artes Entre as Letras" (Porto), de 29.12.2021






Devido a problema técnico irritante do programa informático utilizado na publicação do jornal, o nome da lancha "VEGA" foi reconhecido como um erro e automaticamente alterado para "VEJA" na edição em papel. Aqui, o verdadeiro nome da malograda embarcação é retomado. Com as emendas devidas, o texto será republicado na edição do dia 12 de Janeiro - o que, convenhamos, é raro e só honra o jornal

A Batalha do Mar de Diu

Completaram-se a 18 de Dezembro de 2021 seis décadas sobre as duas últimas refregas em que Portugal participou com meios navais, quando a União Indiana invadiu os territórios da então designada Índia portuguesa [1]. No mar de Goa, o aviso de 1.ª classe "Afonso de Albuquerque" foi neutralizado, tendo a guarnição sofrido cinco mortos e vários feridos, entre os quais o comandante, António da Cunha Aragão (Lisboa, 1904). Tratou-se de uma batalha naval na verdadeira acepção da palavra, embora entre pequeno e obsoleto vaso de guerra do lado português e vasta e poderosa armada que até comportava um porta-aviões, do contrário. A desproporção de meios permitiu ao inimigo uma vitória fácil – pese, embora, a valentia dos marinheiros portugueses, reconhecida pelos indianos [2]. 

A batalha do mar de Diu, aquela que interessa para este artigo, teve lugar no mesmo dia e apresentou forças em confronto de igual modo díspares. O 2.º tenente Jorge Manuel Catalão Oliveira e Carmo (Alenquer, 1936), comandante da lancha de fiscalização em fibra de vidro "Vega" – equipada apenas com uma antiaérea de 20mm e guarnição de mais sete homens –, depois de tentar efetuar um ataque ao cruzador indiano "Delhi", decide entrar em combate contra os caças-bombardeiros Vampire que metralhavam as tropas terrestres portuguesas. Com o fogo da peça da "Vega" são repelidos vários ataques aéreos e atingidos três aviões. No entanto, numa derradeira carga em fogo-cruzado, os caças indianos bombardearam a lancha – matando o comandante e o marinheiro-artilheiro António Ferreira e ferindo três homens, um dos quais morreria mais tarde –, afundando-a envolta em chamas. Segundo relatos dos sobreviventes, Oliveira e Carmo tombou com uma rajada no peito. Nos últimos momentos, tinha as pernas cortadas pelas coxas. Fardado de branco, disse aos seus homens que assim morreria com mais honra. O marinheiro-artilheiro Aníbal dos Santos Fernandes Jardino, sucumbiu durante a tentativa de salvação a nado, devido a ferimentos resultantes do combate (perna esquerda cortada pela canela) [3]. 

Para além dos louvores, promoções por distinção, condecorações e outras homenagens que estes homens receberam, pelo menos dois tiveram até agora monumento escultórico público: Oliveira e Carmo e Aníbal Jardino. O dedicado ao oficial foi erigido na sua terra, Alenquer, por iniciativa do município, em Agosto de 1962, menos de um ano após os acontecimentos da Índia. Digno, mas vulgar, traduz-se na clássica apresentação de busto sobre pedestal e nada acrescenta ao género [4]. Diferente é o caso da memória a Aníbal Jardino (1935, Carção, Vimioso, Bragança), com autoria de José António Nobre (1954, Sendim, Miranda do Douro), artista de longa carreira e vasta e sólida produção escultórica pública [5]. Com encomenda da Câmara Municipal de Bragança, o monumento foi inaugurado a 18 de Dezembro de 2004, no Jardim Público Parque Eixo-Atlântico da cidade. Trata-se de um conjunto em bronze sobre suporte de granito, com altura aproximada de 6m, por 4,20m de frente. A parte metálica configura o busto do desditoso militar, agregado ao esqueleto incompleto do convés da "Vega", depois de tomada pelo fogo, a mergulhar no oceano, crivada de balas, sugeridas pelo escultor com marcas na amurada. Acertadamente, Jardino não é representado a soçobrar no interior da embarcação [6], visto que faleceu, como antes referimos, durante a dramática viagem de sete horas em que os companheiros, a nado, o transportaram sobre pequena balsa [7] até atingirem terra. Assim, o busto está integrado numa aplicação de ondas (também em bronze) colocada do lado de bombordo, a meio da lancha que mergulha inclinada nas águas, mas no exterior da mesma – figurando-se com economia de meios a ligação entre ambos e o seu mútuo fim nas águas do Índico. A base do monumento, em granito, recorda o vínculo do marinheiro ao local de origem e ao mesmo tempo aponta para as profundezas onde a lancha repousa, bem como dois dos seus tripulantes. Sabemos por documentação que o escultor nos facultou que nos estudos preliminares ainda houve as ideias de apenas um conjunto de ondas ou de uma alusão mais fiel à "Vega" navegando sob um mapa da Índia. A arrojada versão final é mais sintética (diríamos, nada literária) e, contudo, de todo acessível, mesmo para quem não esteja muito a par do acontecimento que evoca. Destaque-se que o monótono pedestal do costume desapareceu, para dar lugar apenas ao suporte em granito, também ele simbólico, telúrico, "genético". Jardino, com o boné e alcache [8] regulamentares da Armada, perfila-se como o herói que foi, num monumento que dignifica o seu sacrifício e se apresenta na obra de José António Nobre como um dos momentos mais significativos, pela originalidade demonstrada.

[1] A operação "Mar Verde", realizada em 22.11.1970 com a invasão do Conacry (República da Guiné) que tinha entre outros objetivos a libertação de 26 prisioneiros de guerra portugueses, embora levada a cabo com meios navais não fosse uma batalha naval.
[2] Os comandantes indianos foram visitar o Comandante Aragão no Hospital Escolar de Pangim, onde foi hospitalizado... e prisioneiro de guerra.
[3] Pelo facto, foi promovido por distinção ao posto seguinte, assim como aos camaradas de armas.
[4] Não conseguimos apurar, a tempo deste texto, a identidade do autor da peça.
[5] Atividade regular de exposições individuais e coletivas, escultura interior e pública e medalhão.
[6] O relatório oficial indica que isso só aconteceu ao comandante e ao marinheiro-atirador António Ferreira.
[7] Um dos homens de "Vega", o marinheiro-fogueiro António da Silva Nobre, também se salvou para nadar, mas separadamente dos outros camaradas.
[8] Ou "colarinho de alcacha", como também é designado.

Um aspecto da maqueta. Fotos de José António Nobre,
excepto as duas últimas




José António Nobre, na fundição, junto ao busto do cabo Jardino

Aspecto da inauguração do monumento

domingo, 26 de dezembro de 2021

[0082] 3.º texto de Joaquim Saial no jornal cultural "As Artes Entre as Letras" (Porto), de 24.11.2021


Mártires portugueses da Grande Guerra, da Armada e da marinha mercante: três monumentos

Joaquim Saial

A Marinha de Guerra é um dos orgulhos nacionais portugueses. Ao longo de séculos, este ramo das forças armadas tem vindo a construir um historial que mesmo nos momentos de derrota quase sempre se consegue revestir de heroísmo. Por isso, a generalidade da população estima a marinhagem e os seus "veículos", entre os quais sobressai o navio-escola "Sagres", ícone da Armada. Por sorte, nos últimos 100 anos, esta não tem sido fustigado com os desastres que outras marinhas têm suportado. A Grande Guerra foi relativamente generosa com ela, apenas com um caso de afundamento em combate que logo se tornou mítico. Na II Guerra Mundial, não participámos. E na Colonial, os piores números penderam sobretudo para o lado do Exército, o mais atingido por mortes em batalha. Ainda assim, o caso do navio patrulha de alto-mar (ou caça-minas, como é mais referido) "Augusto de Castilho" bombardeado por um submarino alemão em 14 de Outubro de 1918 e os combates navais em defesa da Índia portuguesa em 18 de Dezembro de 1961, em que foram abatidos pela marinha da União Indiana o aviso "Afonso de Albuquerque" e pela aviação do mesmo país a lancha "Vega", deram origem a alguns monumentos escultóricos, três dos quais são motivos da presente "Escultura Pública".

Comecemos pelo chamado padrão de Santa Maria, erigido em Vila do Porto, ilha de Santa Maria, Açores. Inaugurado em 4 de Outubro de 1929, numa esplanada do forte de S. Brás, lembra a chegada de sobreviventes do ataque ao "Augusto da Castilho", três dias após o afundamento do navio. Peça algo atarracada, da autoria do arquitecto Raul Lino (1879, Lisboa – 1974, Lisboa), tem panóplia decorativa de teor "manuelino", com cruz de Cristo, esfera armilar e cordame que assentam num bloco de cinco cilindros. Teve a particularidade de ter sido exposto na lisboeta Avenida da Liberdade no Agosto anterior, como já tinha sido o Zarco de Francisco Franco, ambos primeiros a terem tido essa honra. Carlos Botelho, em desenho no "Sempre Fixe", chamou "monumento catita" [1] ao memorial, escolhido por um júri de arquitectos, composto por Norte Júnior, Tertuliano Marques e Cristino da Silva e executado em pedra cinzenta da serra de Cabriz pelos irmãos canteiros Almeida Rodrigues que tinham oficina na Calçada Marquês de Abrantes, em Lisboa.

Outro monumento, também levantado nos Açores, desta feita na ilha de São Miguel, encontra-se adossado à muralha do forte igualmente designado como de São Brás. Sugerido pelo antigo presidente da república Manuel Teixeira Gomes, trata-se de uma homenagem mista à marinha mercante (pioneira, neste segundo caso) e à Armada. Dedicado aos "Marinheiros portugueses", teve projecto aprovado em 25 de Julho de 1933, mais uma vez da autoria do arquitecto Raul Lino [2], agora com colaboração de Diogo de Macedo (1889, V. N. Gaia – 1959, Lisboa), na parte escultórica [3]. Inaugurou-se a 26 de Abril de 1936, na presença de autoridades da ilha e de oficialidade que se deslocou de Lisboa, a bordo do paquete "Vulcânia" e do aviso "Afonso de Albuquerque" – que cerca de três décadas depois seria afundado em combate, em defesa da Índia portuguesa. Relativamente discreto, sem exageros escusados, com o marinheiro da Armada segurando uma espingarda e o da marinha mercante apoiando-se numa âncora, oferece-nos a visão de dois musculados mártires da guerra sobre proas de navios vagamente esboçadas que cruzam o oceano, representado pela arca de água que enquadra o conjunto e lhe dá maior monumentalidade e sentido.

O último que referiremos é o dedicado ao comandante do "Augusto de Castilho", 1.º tenente Carvalho Araújo, herói morto durante serviço de escolta ao navio mercante "S. Miguel" [4], numa luta desigual em velocidade e armamento, contra um submarino alemão comandado por um dos oficiais mais hábeis da frota germânica. Com concurso realizado em 12 de Abril de 1928 [5], a maqueta vencedora foi escolhida por júri composto por gente das artes maiores: o pintor João Augusto Ribeiro (professor da Escola de Belas Artes do Porto), o escultor António da Costa (como delegado da Sociedade Nacional de Belas Artes) e o arquitecto Carlos Ramos (como representante da Associação dos Arquitectos Portugueses). A vitória foi para a maqueta do escultor Anjos Teixeira (pai) – (1880, Lisboa –1935, Lisboa), depois traduzida numa obra digna, de três metros de altura, em bronze, que nos mostra o intrépido oficial de punhos cerrados, em atitude determinada e gesto enérgico, pronto para o sacrifício que o celebrizou. Este teor psicológico é acentuado pelas duas dinâmicas figuras em pedra que lutam na base (aparentadas com as de Maximiano Alves para o monumento aos mortos da Grande Guerra, de Lisboa), que podemos identificar como os dois vasos de guerra oponentes ou os dois comandantes (até os dois povos) que no aziago dia se defrontaram. Erigido por subscrição nacional, foi inaugurado em 14 de Outubro de 1931.

[1] "Sempre Fixe", 15.8.1929, p. 8.

[2] "Diário de Notícias", 26.7.1933, p. 2.

[3] Inicialmente, previa-se que as esculturas seriam da autoria do açoriano Canto da Maia (referida no jornal da nota anterior).

[4] No combate, morreram mais cinco homens.

[5] "Diário de Notícias", 20.4.1928, p. 1.

Foto site "Momentos de História"
Carlos Lopes Alves

Padrão de Santa Maria,
desenho de Carlos Botelho, 
"Sempre Fixe", 15.08.1929

Monumento de Ponta Delgada - Foto Joaquim Saial
 
Monumento de Vila Real - Foto Joaquim Saial

Foto Joaquim Saial

Foto Joaquim Saial

[0081] 2.º texto de Joaquim Saial no jornal cultural "As Artes Entre as Letras" (Porto), de 27.10.2021



A estátua de D. Afonso Henriques, oferecida pelo distrito do Porto a Lisboa

Joaquim Saial

A ideia de uma estátua de D. Afonso Henriques para Lisboa veio de António de Oliveira Salazar, nos primeiros dias do seu longo consulado, em 1933. Em 13 de janeiro, Águedo de Oliveira, subsecretário de Estado das Finanças, instalou a comissão encarregada de fazer os estudos e preparar a base do concurso para o monumento. Compunham-na (sem escultor), para além do pintor António Soares e do arquiteto Cristino da Silva, do então vice-almirante Gago Coutinho, gustavo Matos Sequeira, Joaquim Leitão, Joaquim Manso, José de Figueiredo, Júlio Dantas e Reynaldo dos Santos. Refira-se, a curiosa filosofia subjacente à produção da estátua, então divulgada por Águedo de Oliveira: "Em breve, Lisboa, graças ao extenso estudo de si, terá um monumento ao auge dos créditos à sua disposição e ao formidável trabalho de ressurgimento em que estamos empenhados, todos bons portugueses. (...) Além destas razões (...), erguendo o monumento, pretende-se ajudar o problema do desemprego e é colocado no seu verdadeiro pé, o das relações da arte com o Estado." Júlio Dantas, que se inclinou para baixo da colina do castelo de São Jorge como local da implantação do memorial ao primeiro rei, também usou a palavra na cerimónia de tomada de posse da Comissão, sugerindo que os "edifícios do século XVII superjacentes às paredes" deveriam ser demolidos e reintegrados as "ruínas antigas, talvez parcialmente mascaradas por estas más construções". É certo que, embora o Coronel Pais Mamede ainda se refira a ele na "Ilustração" de 16 de fevereiro, bem como na portaria que em 21 de dezembro de 1935 criou a comissão do monumento falhado a Mouzinho de Albuquerque a Lisboa, este "D. Afonso Henriques" foi esquecido.

Cerca de dez anos depois, a 6 de agosto de 1945, o "Diário Popular" ecoou leitores que sentiam que uma estátua deveria ser erguida ao Rei Fundador durante as festas da cidade de 1947, quando seria celebrada a 800a do "seu" da tomada de posse da cidade aos mouros. Esta estátua – que será a razão de um futuro artigo nesta coluna – da mão de Leopoldo de Almeida, bem como de outra de D. João I da mesma autoria, foram colocadas em 31 de dezembro de 1952 em nichos existentes no átrio do Edifício dos Paços do Concelho de Lisboa e foram quebrados até ao incêndio de 1996. A 31 de agosto e agosto de 1997, foram reabertos num novo local, no topo do Campo Grande (Jardim Mário Soares), em frente ao Museu da Cidade, mais ou menos onde estava uma estátua do Presidente da República, Óscar Carmona.

Agora, voltando a 1947, o "Diário Popular" foi anunciado no "Diário Popular" de 7 de outubro, para a manhã do dia 25, uma paragem com 10.000 homens na Avenida da Liberdade e que à tarde seria inaugurada no castelo de São Jorge a estátua de D. Afonso Henriques, réplica da modelada por Soares do Reis (1847, V. V. N. Gaia), oferta do Distrito do Porto para a cidade de Lisboa. A ideia veio do governador civil do norte, coronel Joviano Lopes, e foi implementada por assinatura pública [1]. Aos 15 anos, dizia-se que na noite anterior ao desmantelamento da estátua (supostamente a fundidora) e que ela e os blocos de pedra do pedestal tinham sido embalados em quatro camiões militares que paravam em Leiria, para continuar no dia seguinte até Lisboa ,onde afinal chegaram depois de uma viagem "a marcha reduzida e muito cautelosa" na manhã do dia 18, nessa altura começaram a ser montados [3]. Apesar dos cuidados que ocorreram, a espada acabou por se partir, mas foi imediatamente reparada. A receber a peça estiveram três vereadores nomeados pelo presidente da câmara: major Reis, António Maria Pereira e Francisco Marques [4]. O trabalho de colocação foi dirigido por arq. Vaz Martins e o agente técnico Alberto Correia, da Direção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais. A obra também fez parte da obra, a eng. Almeida Garret e o construtor civil José de Sousa Camarinhas. As fundações sobre as quais a montagem é lançada têm 5,30 m de profundidade por 4m de diâmetro.

Entre as muitas individualidades presentes na inauguração, incluindo o Chefe de Estado, destaca-se a Delegação do Porto, constituída pelo Presidente da Câmara, Prof. Luís de Pina, pelo governador civil Joviano Lopes, bispo do Porto, comandante-geral da 1ª Região Militar, presidente da comissão distrital da União Nacional, 17 autarcas do distrito, 15 presidentes das juntas de freguesia do concelho do Porto, delegações da Juventude Portuguesa para homens e mulheres e diretores dos jornais diários da Invicta.

Finalmente, podemos dizer que quando no dia 25 de outubro de 1947, o bronze de D. Afonso Henriques, réplica de Guimarães, o distrito do Porto e a sua cidade não só ofereceu a Lisboa uma excelente escultura (embora do século XVIII...), mas de uma forma enterrada para sempre a ideia destrambelhada de Júlio Dantas para colocar uma homenagem ao rei primitivo na encosta do castelo, com consequente destruição de casa velha. Caso para dizer que aqui havia um bem que veio mesmo... para sempre. E isto deve ter parecido igualmente àqueles que naquela noite, entre 22 e 24 horas, viram a luz formada pelos 35 projetores militares que de Almada e do Alto Duque iluminaram o castelo e a estátua daquele que o conquistou dos sarracenos.

[1] de Lisboa", 25.10.1947, p. 7.

[2] "Diário Popular", 15.10.1947, p. 7.

[3] "Diário Popular", 18.10.1947, p. 1. Aqui, dizia-se que a estátua tinha sido transportada em seis camiões...

[4] "Diário Popular", 16.10.1947, p. 1.

Presidente Óscar Carmona, durante
a inauguração Foto Judah Benoliel

Presidente Óscar Carmona, durante a inauguração 
Foto Judah Benoliel


Foto Joaquim Saial
 
Foto Joaquim Saial

Foto Joaquim Saial

Foto Joaquim Saial

sábado, 25 de dezembro de 2021

[0080] 1.º texto de Joaquim Saial no jornal cultural "As Artes Entre as Letras" (Porto), de 29.09.2021 (fotos de Joaquim Saial)







O divertido, mas impossível "burro-escorrega" de Cacilhas

Joaquim Saial

Até à inauguração da ponte de 1966, Cacilhas foi, tal como o Barreiro, importante porta de entrada ou saída do Sul do país. Atravessava-se o Tejo de vapor ou de veleiro desde a capital até essa freguesia almadense e aí, pelo menos até ao final dos anos 20 do século passado, quem depois queria continuar com mais conforto para localidades limítrofes, alugava um burro. Igualmente, eram levados em barcos, a solo ou atrelados a carroças, transportando mercadorias para Lisboa ou de lá as trazendo depois. A  vasta quantidade de jericos sempre disponíveis junto ao local de atracação das embarcações deu origem a piadas recorrentes que até falavam de uma suposta "Universidade de Cacilhas", frequentada por "burros". Talvez (ou sobretudo) por isso, o pintor Columbano Bordalo Pinheiro, nascido em Cacilhas por mero acaso de fuga da mãe grávida a mortífera epidemia de febre-amarela existente em Lisboa no ano de 1857, não gostava que dissessem que tinha vindo ao mundo naquele local da margem sul do Tejo. No seu famoso e acutilante "Manifesto Anti-Dantas" de 1915, Almada Negreiros seria um entre muitos que citaram os asnos cacilhenses.

Ora acontece que a Câmara Municipal de Almada resolveu comemorar em 2001 os 25 anos de poder local democrático, encomendando a 11 escultores outros tantos monumentos, um por cada uma das freguesias à data existentes no concelho. São no geral obras de boa qualidade e quase por inteiro de carácter abstracto. Uma, porém, se salienta pelo seu sentido surrealizante, assaz bem-disposto: a intitulada "As Crianças Primeiro", de Jorge Pé-Curto (Moura, 1955).

Lembrando os parques infantis que logo após o 25 de Abril proliferaram pela maioria das localidades do território nacional, a escultura de Pé-Curto está instalada no passeio de uma pracinha oblonga que se abre na Rua Comandante António Feio, com bancos de jardim e algum arvoredo, local inclinado que obrigou à normalização horizontal da base rectangular em que a peça assenta (betão, com revestimento de placas de granito [1]). É composta por duas chapas de aço corten, paralelas e idênticas, recortadas em desenho com forma de burro sentado sobre os membros traseiros. Unindo-as, temos na frente sete tubos de aço inoxidável, sugerindo degraus de escada; no outro lado, uma chapa também inoxidável que percorre o burro desde o topo da cabeça até ao solo. Para além disto, e fazendo jus ao nome do conjunto, vemos três esculturas de crianças, em bronze e em tamanho natural: um rapazinho sobe a escada, agarrando-se ao degrau que equivaleria ao freio do burro; outro, já está no topo, ávido por lançar-se na chapa do escorrega; por fim, uma menina de laçarote na cabeça e de braços abertos, desliza por ela, prestes a atingir o solo. A iluminação não foi esquecida, feita a partir de quatro focos instalados nos cantos da base da escultura, onde também vemos a identificação da mesma. Ressaltam desde logo a referência inusitada aos burros cacilhenses, o limpo desenho da dupla figura recortada, a boa qualidade naturalista e espontaneidade das representações infantis e o humor com que a homenagem às crianças é exposta. 

Ora estes três meninos, tanto são um hino à infância ingénua, feliz e descontraída (o que de facto neles se pode "ler"), como o fulcro da impossibilidade imposta pelo escultor que quis ali fazer uma obra de arte para ser fruída pelo olhar e não um equipamento de jardim infantil – pois nenhuma criança de carne e osso consegue subir pelo burro, nem descer pelas costas dele, disso impedida pelos três "imóveis" companheiros de folguedo ali plantados. Daí que seja talvez excessivo chamar ao simpático animal "burro-escorrega", já que nele só com dificuldade se podem subir os dois degraus iniciais e é impossível escorregar (excepto através da imaginação do espectador que o observa). O contraste de cor entre os materiais utilizados (que, no entanto, se completam) é outro motivo de interesse, pelo eficaz desempenho em termos visuais e da verosimilhança que oferecem à cena.

Uma vez por outra, nas muitas passagens que com regularidade fazemos pelo local, temos visto pichagens de rabiscos e palavras em ambas as chapas de aço. De igual modo, já houve tempo em que parte da cobertura do suporte esteve em mau estado. Felizmente, os serviços municipais respectivos recuperaram a base e vão limpando a peça com regularidade, pelo que no momento em que escrevemos estas linhas e a fotografámos, a escultura estava imaculada, sem sinal de danos – o que pode indiciar a sua apropriação pelas gentes vizinhas, que de início a estranharam, mas depois a adoptaram e estimam. 

Num sítio em que a construção é antiga, de população envelhecida e onde por via disso se verifica acentuada falta de crianças, este monumento engenhoso quase que colmata esse senão. Dia e noite, com a militância que a arte e sobretudo o escultor lhes ofereceram, o burro e os divertidos meninos metálicos são a alegria (silenciosa) do local, anunciando de certo modo o bulício que metros abaixo se desenrola na rua Cândido dos Reis, em época recente tornada pedonal, repleta de restaurantes, bares, esplanadas... e gente.

[1] LIMA, Filomena Maria Figueira Freire de. Escultura em Espaços Públicos de Almada: da Colecção à Proposta de Acção Museal/Educação Patrimonial, tese de Mestrado em Museologia e Museografia, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, 2006. Neste importante trabalho, à pág. 59 diz-se que o revestimento é de xisto. Interrogado por nós, o escultor apenas se referiu ao granito que hoje lá se pode ver.


















[0079] Statue Park - Budapest (parque de estátuas da época soviética)

[0078] Charles B. Hayes Family Sculpture Park (University of Notre Dame, Indiana, USA)

domingo, 5 de dezembro de 2021

[0076] A mais recente medalha realizada pelo escultor João Duarte: I Centenário do Alhandra Sporting Clube

 

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FICHA TÉCNICA
Título: Medalha Comemorativa dos 100 Anos do Alhandra Sporting Club
Autor: Escultor João Duarte
Técnica: Construída
Dimensões: 100x100 mm
Ano: 2021
Edição: 70 exemplares
Fabricante: Gravarte