| Escultor Francisco Franco |
terça-feira, 15 de março de 2022
segunda-feira, 14 de março de 2022
sábado, 5 de março de 2022
[0103] 5.º texto de Joaquim Saial no jornal cultural "As Artes Entre as Letras" (Porto), de 26.01.2022
Os "contorcionistas invertebrados" de Maximiano Alves
Joaquim Saial
A expressão "contorcionistas invertebrados" é do pintor e ilustrador Carlos Botelho, alusiva aos dois "gigantes", esculturas de figuras masculinas que ladeiam e visualmente suportam as estátuas superiores do monumento aos Mortos da Grande Guerra de Lisboa, inaugurado em 1931. Escreveu-a ele como legenda de um cartoon alusivo, no semanário humorístico "Sempre Fixe" do dia 12 de Novembro, pouco antes da cerimónia de descerramento do conjunto que tem por autores o arquitecto Guilherme Rebelo de Andrade (pedestal [1]) e o escultor Maximiano Alves (1888, Lisboa – 1954, Lisboa). O texto completo é "Senhor Minimiano (por oposição a Maximiano) Alves, o seu modelo ou era molusco ou um contorcionista invertebrado… brado eu e toda a gente…" No cartoon, via-se ainda um desenho da tribuna feita para a ocasião, a que Botelho chamava "Pavilhão estilo 1890, construído em 1931", piada dentro da piada, aludindo neste caso ao aspecto antiquado do mesmo, semelhante que era a outros feitos no século XIX. Botelho detinha a totalidade do espaço da página 8, última do jornal, sob o título de "Ecos da Semana". Ali fazia frequentes alusões a monumentos ou estátuas que se iam erguendo no território continental e ultramarino, em geral com acerto. Contudo, neste caso não era totalmente justo, pois se por um lado as figuras têm algum excesso de pose, por outro asseguram com a energia associada à torção dos corpos a ideia pretendida, de transmitir o agradecimento dos portugueses às suas tropas presentes na Grande Guerra, consubstanciado nas estátuas cimeiras, do soldado e da Pátria que o galardoa com coroa de louros. José-Augusto França falou do gosto "expressionista miguelangesco" de Maximiano imposto aos dois "gigantes" [2]. Na realidade, se eles não têm a perfeição do "David" do Buonarroti, são ainda assim dos melhores exemplares no género e da sua época realizados em Portugal. O monumento tem historial longo, com curiosas peripécias que devido ao reduzido espaço de que dispomos não podem aqui ser contadas. Adjudicado aos autores por escritura de 22 de Outubro de 1925 e descerrado a 22 de Novembro de 1931, é o que do seu tipo mais meios movimentou e apresenta-se como peça que cumpre as funções para que foi criado. Sem grandes rasgos de originalidade, é afinal um monumento honesto, sendo ainda hoje ali que se realizam as cerimónias principais de homenagem aos militares portugueses que serviram o país ou por ele tombaram durante o primeiro grande conflito mundial.
No final da década, Maximiano Alves reincidiria no modelo de figuras masculinas em torsão, quando realizou as chamadas "Fontes" para os terminais do antigo sifão de Sacavém, sobre o rio Trancão. O velho aparelho hidráulico de ferro foi substituído por nova estrutura mais monumental, em cimento armado [3], que em cada topo tinha uma edificação encimada por estátua de vasto tamanho, no mesmo material. A obra foi entregue pela comissão de abastecimento de águas a Lisboa e pelo ministro das Obras Públicas Duarte Pacheco aos irmãos Rebelo de Andrade que por sua vez procuraram a colaboração do escultor. Eis parte da descrição de uma das estátuas, feita no "Diário de Notícias" de 13 de Abril de 1938. "Essa estátua de linhas singelas gigantescas representa um homem, que de joelhos em terra esvazia um enorme cântaro de água. Tem sete metros de altura, mas de pé teria quinze. Essas dimensões fazem dela a maior de Portugal (…) A do marquês de Pombal (…) tem só nove metros). (..) esta (…) é tão volumosa que dentro da cabeça, na sua moldagem de gesso, pode um homem normal andar a vontade, pois tem para isso o espaço de uma saleta com dois metros de altura (…)". O trabalho levou dois anos a concretizar em gesso e mais um a ser passado ao cimento. Obras inusuais em Portugal, de expressão facetada, para serem percebidas de longe, tiveram final inesperado, quando foram mandadas destruir "Em nome da estética", como titulava o "Diário Popular" de 9 de Dezembro de 1942, em notícia de 1.ª página: "Em miniatura, as figuras eram de grande efeito. Mas, uma vez em plano de construção definitiva, assumiam tais proporções que dominavam a ponte e tudo em redor, revelando dimensões gigantescas que prejudicavam a ideia de beleza que havia preconcebido a sua realização."
Esta estranha e rara demolição [4] (que não inédita [5]), havia de ser de certo modo vingada pelo escultor com peça de pequeno volume, figurinha naturalista que novamente em pose de torsão segura com ambas as mãos uma taça em forma de semiesfera. Intitulada "Menino com gamela", está datada de 1948 e situa-se no Jardim do Campo Grande (Jardim Mário Soares), Lisboa.
[1]
O monumento está assinado no pedestal por Maximiano Alves e por Guilherme
Rebelo de Andrade que a 25 de Novembro recebeu o grau de comendador da Ordem de
Cristo, em cerimónia que teve lugar no Palácio de Belém; Maximiano Alves foi
agraciado com o grau de oficial. Contudo, alguma bibliografia dá a parte
arquitectónica como parceria de Guilherme Rebelo de Andrade e de seu irmão
Carlos que de facto fez dupla com ele em vários projectos.
[2]
FRANÇA, José-Augusto. A Arte em Portugal no Século XX, Livraria
Bertrand, Lisboa, 1974.
[3]
Diogo de Macedo já utilizara em 1914 este material de forma pioneira em
baixos-relevos no portuense Teatro de São João: "Amor",
"Dor" e "Ódio".
[4]
Resta uma cabeça, exibida dentro de estrutura metálica, perto do local inicial,
desde 1 de Outubro de 1998 (manhã do dia seguinte ao encerramento da EXPO 98),
data em que foi inaugurada a requalificação das margens do rio Trancão, na zona
da sua foz.
[5] Lembramos, por exemplo, o conjunto "Camaradagem na Derrota" de Hein Semke, mandada destruir pelas autoridades nazis da embaixada germânica em Lisboa, pouco após a sua inauguração (meados dos anos 30), na Igreja Evangélica Alemã de Lisboa.
| Foto Joaquim Saial |
| Foto Joaquim Saial |
[0102] Relações da escultura entre Portugal e Espanha nas décadas de 40 e 50 do século XX - Texto de Joaquim Saial (2007)
Artigo de Joaquim Saial "Revista de Estudios Extremeños", Diputación Provincial de Badajoz, Maio-Agosto/2007 (18 pp)
Ver AQUI (texto completo com possibilidade de fazer download)
[0100] Atingido o número dos 100 posts
100 posts, em 157 dias, com mais de 8100 visitas, sempre, em prol da escultura e da arte pública escultórica.
A missão vai sendo cumprida.
domingo, 13 de fevereiro de 2022
[0096] Estátua equestre de Joaquim Bastinhas a inaugurar em Elvas, da autoria do escultor sevilhano José António Navarro Arteaga
sábado, 12 de fevereiro de 2022
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
[0092] Novo artigo de Joaquim Saial, a sair a 23 de Fevereiro de 2022, em "As Artes Entre as Letras"
Artigo na página mensal "Escultura Pública", única regular sobre este assunto no país, a sair no próximo dia 22 de Fevereiro:
1.ª parte do texto "Manual prático" de destruição de monumentos escultóricos que começa exactamente assim:
Desengane-se, leitor, se ao dar com o título do presente artigo pensa que o escriba do mesmo apoia a destruição de esculturas públicas que adquiriram anticorpos desaconselháveis à sua presença em jardins, praças, avenidas e ruas. É que, para além de uma estátua poder ser homenagem a figura ou acontecimento hoje reprovável, teoricamente é obra artística, pelo que comporta valores que exigem a sua salvaguarda. Adequado tratamento museológico facilitará, entretanto, a possibilidade de passar a ter acrescido significado educativo, mantendo-se disponível para o estudo da arte.
| Estátua de Almeida Garrett, esc. Salvador Barata Feyo, Av. da Liberdade, Lisboa, inaug. 1950 Foto Joaquim Saial |
sábado, 5 de fevereiro de 2022
[0090] Saiu o 5.º texto de Joaquim Saial no jornal "As Artes Entre as Letras"
Tal como os anteriores quatro, o texto será lançado integralmente neste blogue (e com mais imagens), cerca de um mês após a sua publicação em papel.
Neste momento, está a ser escrito o sexto, com o título provisório de "Manuel prático de destruição de monumentos escultóricos" (caro leitor, não se assuste, já que o conteúdo aponta precisamente para o contrário!...)
quarta-feira, 19 de janeiro de 2022
domingo, 2 de janeiro de 2022
[0083] 4.º texto de Joaquim Saial no jornal cultural "As Artes Entre as Letras" (Porto), de 29.12.2021
Devido a problema técnico irritante do programa informático utilizado na publicação do jornal, o nome da lancha "VEGA" foi reconhecido como um erro e automaticamente alterado para "VEJA" na edição em papel. Aqui, o verdadeiro nome da malograda embarcação é retomado. Com as emendas devidas, o texto foi republicado na edição do dia 12 de Janeiro - o que, convenhamos, é raro e só honrou o jornal
Joaquim Saial
Completaram-se a 18 de Dezembro de 2021 seis décadas sobre as duas últimas refregas em que Portugal participou com meios navais, quando a União Indiana invadiu os territórios da então designada Índia portuguesa [1]. No mar de Goa, o aviso de 1.ª classe "Afonso de Albuquerque" foi neutralizado, tendo a guarnição sofrido cinco mortos e vários feridos, entre os quais o comandante, António da Cunha Aragão (Lisboa, 1904). Tratou-se de uma batalha naval na verdadeira acepção da palavra, embora entre pequeno e obsoleto vaso de guerra do lado português e vasta e poderosa armada que até comportava um porta-aviões, do contrário. A desproporção de meios permitiu ao inimigo uma vitória fácil – pese, embora, a valentia dos marinheiros portugueses, reconhecida pelos indianos [2].
A batalha do mar de Diu, aquela que interessa para este artigo, teve lugar no mesmo dia e apresentou forças em confronto de igual modo díspares. O 2.º tenente Jorge Manuel Catalão Oliveira e Carmo (Alenquer, 1936), comandante da lancha de fiscalização em fibra de vidro "Vega" – equipada apenas com uma antiaérea de 20mm e guarnição de mais sete homens –, depois de tentar efetuar um ataque ao cruzador indiano "Delhi", decide entrar em combate contra os caças-bombardeiros Vampire que metralhavam as tropas terrestres portuguesas. Com o fogo da peça da "Vega" são repelidos vários ataques aéreos e atingidos três aviões. No entanto, numa derradeira carga em fogo-cruzado, os caças indianos bombardearam a lancha – matando o comandante e o marinheiro-artilheiro António Ferreira e ferindo três homens, um dos quais morreria mais tarde –, afundando-a envolta em chamas. Segundo relatos dos sobreviventes, Oliveira e Carmo tombou com uma rajada no peito. Nos últimos momentos, tinha as pernas cortadas pelas coxas. Fardado de branco, disse aos seus homens que assim morreria com mais honra. O marinheiro-artilheiro Aníbal dos Santos Fernandes Jardino, sucumbiu durante a tentativa de salvação a nado, devido a ferimentos resultantes do combate (perna esquerda cortada pela canela) [3].
Para além dos louvores, promoções por distinção, condecorações e outras homenagens que estes homens receberam, pelo menos dois tiveram até agora monumento escultórico público: Oliveira e Carmo e Aníbal Jardino. O dedicado ao oficial foi erigido na sua terra, Alenquer, por iniciativa do município, em Agosto de 1962, menos de um ano após os acontecimentos da Índia. Digno, mas vulgar, traduz-se na clássica apresentação de busto sobre pedestal e nada acrescenta ao género [4]. Diferente é o caso da memória a Aníbal Jardino (1935, Carção, Vimioso, Bragança), com autoria de José António Nobre (1954, Sendim, Miranda do Douro), artista de longa carreira e vasta e sólida produção escultórica pública [5]. Com encomenda da Câmara Municipal de Bragança, o monumento foi inaugurado a 18 de Dezembro de 2004, no Jardim Público Parque Eixo-Atlântico da cidade. Trata-se de um conjunto em bronze sobre suporte de granito, com altura aproximada de 6m, por 4,20m de frente. A parte metálica configura o busto do desditoso militar, agregado ao esqueleto incompleto do convés da "Vega", depois de tomada pelo fogo, a mergulhar no oceano, crivada de balas, sugeridas pelo escultor com marcas na amurada. Acertadamente, Jardino não é representado a soçobrar no interior da embarcação [6], visto que faleceu, como antes referimos, durante a dramática viagem de sete horas em que os companheiros, a nado, o transportaram sobre pequena balsa [7] até atingirem terra. Assim, o busto está integrado numa aplicação de ondas (também em bronze) colocada do lado de bombordo, a meio da lancha que mergulha inclinada nas águas, mas no exterior da mesma – figurando-se com economia de meios a ligação entre ambos e o seu mútuo fim nas águas do Índico. A base do monumento, em granito, recorda o vínculo do marinheiro ao local de origem e ao mesmo tempo aponta para as profundezas onde a lancha repousa, bem como dois dos seus tripulantes. Sabemos por documentação que o escultor nos facultou que nos estudos preliminares ainda houve as ideias de apenas um conjunto de ondas ou de uma alusão mais fiel à "Vega" navegando sob um mapa da Índia. A arrojada versão final é mais sintética (diríamos, nada literária) e, contudo, de todo acessível, mesmo para quem não esteja muito a par do acontecimento que evoca. Destaque-se que o monótono pedestal do costume desapareceu, para dar lugar apenas ao suporte em granito, também ele simbólico, telúrico, "genético". Jardino, com o boné e alcache [8] regulamentares da Armada, perfila-se como o herói que foi, num monumento que dignifica o seu sacrifício e se apresenta na obra de José António Nobre como um dos momentos mais significativos, pela originalidade demonstrada.